A história de Pirenópolis, apesar de não ser uma cidade tão antiga e ter vivido um tempo de estagnação e isolamento, é vasta e não cabe em poucas letras. Coloco, então, aqui um pequeno resumo. Dividi a história de Pirenópolis em 4 ciclos: O ciclo do ouro; a agricultura e o comércio; isolamento e arte; e, por fim, a pedra e o turismo. Não sem antes expor um pouco da geo-história e da pré-história. Para os olhos de um estudioso, como eu, muito ainda tem por fazer, e muito ainda tenho para acrescentar. Mas para aqueles que querem um breve relato, ao final temos um pequeno resumo. A fonte mais rica, sem sombra de dúvida, da história de Pirenópolis é a bela obra de Jarbas Jaime, o Esboço Histórico de Pirenópolis, obra editada pela UFG, Universidade Federal de Goiás, em 1971, com 2 tomos e 618 páginas, que se tornou uma obra rara e valiosa que merecia ser reeditada.
É extremamente importante conhecer um pouco da geografia da região para que possamos nos localizar dentro de um contexto histórico. Estamos no centro do continente sul-americano, a milhares de quilômetros do litoral, motivo este de ser o estado de Goiás um dos últimos a ser colonizado. Para nosso estudo podemos dividir este imenso território em duas partes: O Planalto, região de formações savânicas, com clima bem definido em duas estações, as chuvas e as secas, e conhecido pelos indios tupis com tapuis, terras altas, e o Mato-grosso-goiano, terras baixas, vãos e nascentes dos caudalosos rios Tocantins e Araguaia, chamado pelos indígenas de Paraupava, que significa em tupi-guarani "água grande e rasa". Esta conformação topográfica definiu bem a colonização nestas áreas antes do descobrimento do ouro. Os rios eram as vias de comunicação da época, portanto as incursões pelos rios Araguaia e Tocantins eram mais freguentes que as excursões por terra pelo Planalto. Pirenópolis está no limite destes dois relevos. Está aos pé da Serra dos Pireneus, que faz parte das divisas do planalto, nas margens e próximo as nascentes do Rio das Almas, tributário do Rio Tocantins. Por estar próximo às nascentes, portanto de difícil navegação, chegava-se por aqui sempre por terra, tanto os indígenas como os europeus.
Vários são os indígenas citados na literatura histórica de Goiás, a começar pelos próprios Goyá, que deram nome ao Estado, que era conhecido como "o sertam dos gentios Goyás", tribo extinta e acredita-se de origem tupi, cujo significado é "os amigáveis", pois a região era habitada, há pelo menos 10.000 anos, por índios do tronco linguístico Macro-jê, estes inimigos dos tupis. Além dos goyás, habitavam a região os índios caiapós, acroás, bororos, carajás, xavantes, xerentes e xacriabás. Eram, em sua maioria, indígenas semi-nômades, caçadores e coletores. Erigiam aldeias, faziam roças de mandioca, habitavam aquele local por um tempo e depois se mudavam.
Considerados pelos desbravadores como índios selvagens e violentos. A maioria não se submeteu a dominação branca,tanto que tem diversos relatos de massacres, tanto dos índios como dos brancos. Expedições inteiras foram dizimadas, assim como tribos também. Dentre estes, os caiapós eram considerados os mais violentos e os últimos a serem reduzidos. Veja o relato de August Saint-Hilaire.
Os primeiros contatos entre índios e brancos se deu no século XVI. A expedição mais antiga que se tem notícia é a de Domingos Luis Grou e Antônio Macedo, em 1590-93. Depois tivemos a de Sebastião Marinho que, em 1592, esteve pela região das nascentes do Tocantins. Muitas outras vieram depois. Do sul vieram os bandeirantes e do norte os jesuítas. Ambos investiram na futura capitania para a evangelização, captura de indígenas, para a escravidão, e para descobertas de riquezas minerais, porém nenhuma delas se fixou na região fundando povoações. Também vieram para Goiás, antes de sua fundação, pecuaristas da Bahia que usavam os campos naturais do alto do planalto durante o período chuvoso para a engorda do gado, construindo algumas fazendas, mas não povoamentos.
Isto somente se deu através dos bandeirantes paulistas. Tendo perdido a guerra dos emboabas, em Minas Gerais, viram-se impelidos a se estabelecerem em regiões do Triangulo Mineiro. Dalí, Goiás ficou um pulinho para os sertanistas experientes. Marcando a história de Goiás, temos o famigerado Anhangüera. Em 1682, Bartolomeu Bueno da Silva, empreendeu uma bandeira até o Rio Araguaia. Na volta, ao passar pelo Rio Vermelho, fez contato com uma tribo de indigena, os Goyá. Vendo as mulheres enfeitadas com pequenas lascas de ouro, usou do sequinte estratagema para obrigá-los contar onde acharam tal ouro: ateou fogo em aguardente na cuia e com a ameaça do pau-de-fogo (espingardas) ameaçou de pôr fogo nas águas e nas matas, caso não contassem o local da mina. Deste modo, descobriu o ouro e ganhou a alcunha de Anhaguera que em tupi significa o diabo-velho, o espírito malígno.
Por volta de 1720, seu filho, Bartolomeu Bueno da Silva Filho, que também herdou a alcunha de anhagüera e sabia dos locais das minas de ouro do sertão dos índios Goyás, resolveu propor um negócio ao Governador de São Paulo, o Conde de Sarzedas, uma vez que a região fazia parte desta capitania. Ele, o Anhagüera, entregaria o local das minas com a condição que lhe fosse dado o direito sobre as passagens dos rios da futura capitania, uma espécie de taxa de pedágio, para ele e três futuras gerações e, também, a sua superintendência. O acordo foi feito sob a condição de que trouxessem para a exploração e administração das minas, portugueses, tendo em vista que a Corôa não confiava nos paulistas. Assim feito, deixou o Anhagüera, São Paulo, em 1722, capitaneando uma bandeira composta quase que exclusivamente por portugueses [veja o relato de Silva Braga]. Vagou esta bandeira, sob protestos revoltados dos portugueses, por longos três anos, demarcando o futuro território goiano. Voltou, Anhagüera, à São Paulo, para dar notícias, no ano de 1725 e retounou numa segunda bandeira em 1726, estabelecendo-se no Arraial da Barra, o primeiro arraial goiano. De lá, despachou os portugueses para um local chamado Meia Ponte, guiados por seu companheiro Urbano do Couto Menezes. Tal grupo fundou em 1727 as Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meia Ponte, que passaria, em 1890, a se chamar Pirenópolis.
Assim chegando, os portugueses se lançaram a cata do ouro, que por estas plagas se encontrava no terreno aluvionário do Rio das Almas. Portanto, o tipo de garimpo aqui empreendido era o de aluvião, que consistia em revirar e lavar o cascalho das margens do rio até poder apurá-lo com a batéia. Os portugueses, em sua maioria oriundos do norte de Portugal, região do Porto, e Galícia, logo trataram de construir casas e igrejas formando um arraial. A Igreja Matriz foi construída por volta de 1728 a 1731 e é considerada hoje a mais antiga igreja de Goiás [Veja sua história].
Com a decadência do ouro. Meia Ponte somente não sucumbiu às ruínas, como foram outras localidades auríferas, por causa da inicitaiva e empreendedorismo do Comendador Joaquim Alves de Oliveira que investiu em agricultura e comércio construindo engenho, plantando algodão, cana e mandioca e montando comércio tropeiro com entreposto e centenas de muares.
Com a morte do Comendador a agricultura e o comércio tropeiro foram gradativamente perdendo forças, fazendo com que alguns comerciantes locais mudassem para o povoado de Santana das Antas, futuramente Anápolis, de local plano de mais fácil acesso. Com isso as rotas comerciais foram transferidas e Meia Ponte isolada.
Com a construção de Brasília a exploração do quartzito se intensifica e visitantes descobrem um cidade do século XVIII, em ruínas mas pouco alterada devido ao isolamento, com um folclore intenso e natureza magnífica.
Pirenópolis foi fundada em 07 de outubro de 1727 por portugueses, que vieram para o garimpo de ouro, com o nome de Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meia Ponte e, mais tarde, Cidade de Meia Ponte. O Garimpo teve o auge em 1750 e sofreu a decadência em 1800. Após exaurir as minas voltaram-se, os meiapontenses, para a agricultura, pecuária e comércio tropeiro. O principal produto agrícola foi o algodão, produto de exportação que ia direto para Inglaterra e era considerado como uma das melhores fibras do mundo. Havia também a produção de cana para açúcar para o comércio regional.
Figurava nesta época como comandante da cidade e região o Comendador Joaquim Alves de Oliveira, construtor da Fazenda Babilônia, a maior empresa agrícola do Centro-Oeste e um dos maiores engenhos de cana do Brasil. Meia Ponte se manteve como grande produtor agrícola e centro mercantil de Goiás, todas as picadas de Goiás passavam em Meia Ponte, até cerca de 1880, quando os principais comerciantes resolveram mudar-se para o Povoado de Santana das Antas, futura Anápolis, por sua localização menos acidentada. Daí em diante, sofreu grande decadência econômica, vindo a mudar seu nome, em 1890, para Pirenópolis, a cidade dos Pireneus, serra cujo nome lembrava por alguns os Montes Pireneus da Europa, divisa de Espanha com França.
Apesar da inatividade econômica, Pirenópolis manteve as tradições, as atividades culturais e as festas populares que a destacava das outras cidades desde os tempos da fundação. Foi em Meia Ponte que surgiu a primeira biblioteca pública; o primeiro professor público de boas letras, para ensinar a população a ler; o primeiro jornal do Centro-Oeste e o primeiro do Brasil a ser editado fora de uma capital, o A Matutina Meiapontense, que servia de correio oficial para a Província de Goiás e de mato Grosso; o primeiro cinema, o Cine-Pireneus; e três teatros na virada do século XIX para o XX. Com tudo isso, ganhou a fama de Berço da Cultura Goiana.
Durante os primórdios e meados do século XX, Pirenópolis só era lembrada por ocasião das festas, que sempre tiveram bastante destaque, como a Festa do Divino, festejada desde 1819, e um pouco de comércio de quartzito por ocasião da construção de Goiânia, em 1930. Até que com a chegada de Brasília, a atividade mineradora do quartzito se intensificou, melhoraram-se os acessos e começaram a chegar visitantes de outras localidades, como compradores de pedras para a construção de Brasília, políticos e viajantres hippies
Nos anos 80, alguns destes hippies mudarem-se na intenção de construir comunidades alternativas e ensinaram para os jovens do local o labor do artesanato de jóias de prata. Aqui se produzia, mas aqui não se vendia. Para a venda destes produtos era preciso viajar e, deste modo, divulgar a pequena cidade do interior de Goiás. Alguns ilustres políticos de Brasília, como o Embaixador Sérgio Amaral, compraram casa e mudaram. Neste momento Pirenópolis estava praticamente em ruínas, as igrejas descascadas, com goteiras e cupins, assim como as casas. Foi iniciado, então, um movimento de valorização do patrimônio histórico, já que a cidade havia guardado bens do período colonial.
Em 1989, a cidade foi tombada pelo IPHAN, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, como conjunto paisagístico e em 1997 iniciou-se um projeto de revitalização do Centro Histórico, quando a Igreja Matriz, o Cine-Pireneus, o Teatro de Pirenópolis e outros monumentos foram restaurados, reformados e reconstruídos criteriosamente.
O turismo, como atividade econômica, teve um forte impulso a partir de 2000, com a divulgação maciça de Pirenópolis e Goiás através do Governo do Estado, por meio de novelas, anúncios televisivos, revistas, carnaval carioca, etc. E, aqui estamos.