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14/05/2017

O repertório sacro da Novena do Divino Espírito Santo

Nove dias antes do Domingo de Pentecostes, dá se início na Igreja Matriz a maior tradição católica, de religiosidade, e expressividade em Pirenópolis: a Novena do Divino Espírito Santo.

O repertório sacro da Novena do Divino Espírito Santo
© Nikolli Pereira

Por Marcos Vinicius Ribeiro dos Santos¹

Nove dias antes do Domingo de Pentecostes, dá se início na Igreja Matriz a maior tradição católica, de religiosidade, e expressividade em Pirenópolis: a Novena do Divino Espírito Santo.

Ela é um dos momentos que mais emocionam o Pirenopolino, pois além das orações ao Divino Espírito Santo, conta com a parte musical, na qual antífonas são executadas pelo Coro Nossa Senhora do Rosário, proporcionando um clima nostálgico ante a presença real de Cristo no Santíssimo Sacramento. E é justamente a música que diferencia a Novena do Divino das demais.

Sendo Pirenópolis o berço da Música em Goiás – conforme Belkis Mendonça, no livro A Música em Goiás (Editora da UFG, 1981), o arquivo de Pirenópolis revela-se o mais antigo e maior do Estado. Nele, há Novenas, Missas, Motetos, Hinos diversos e não poderia faltar uma Novena em homenagem à Padroeira, composta, conforme Braz de Pina, por Antônio da Costa Nascimento (autor do Hino do Divino). Mas a Novena do Rosário não tem mais o esplendor de outrora porque o Coral não canta mais nela, fazendo com que a Novena do Divino se tornasse a mais importante quando se fala em Música.

Pouco se sabe sobre autoria, local e ano das composições, ou quando elas foram inseridas na Festa, mas uma coisa é certa: a Novena do Divino como conhecemos é fruto de um processo no qual as opções dos maestros, cantores, instrumentistas, Imperadores do Divino e Irmãos do Santíssimo (cuja instituição já teve mais de 150 Imperadores), além do gosto de época – sobretudo do século XIX – foram determinantes para sua atual estrutura, e por se tratar de paraliturgia, há certa liberdade em relação à escolha das músicas, o que fez com que a Novena seja da forma que é.

As composições foram pensadas para orquestra com a seguinte formação: Flauta em Dó, 1ª e 2ª Clarineta em Sib, Sax Tenor, 1º e 2º Trompete em Sib, Trombones em Dó, Bombardino em Sib, Baixo em Sib, 1º e 2º Violinos e Contrabaixo em Mib. O Coro: á 2 vozes e Baixo, além de um Solo em Soprano: O Salutaris. Atualmente, a orquestração usual para a Novena e demais solenidades com coro se resume aos sopros, por não haver quem toque cordas.

Por se tratar de um serviço religioso dedicado ao Espírito Santo, é executado, como introito (entrada) o Veni Creator ou 1º Veni Creator. Anônimo, sem indicação de ano ou copista, com fórmula de compasso 6/8 executados no andamento Andante e com 46 compassos, sendo que os 8 primeiros são introdução e é repetido a partir do compasso 33, onde o coro canta em latim: Quae tu Creasti. Pode ser que o compositor tenha gostado desse trecho e por isso o colocara na introdução, mas isto só ele sabe...

A segunda música chama-se 2º Veni Creator. Na verdade, ela pode ser chamada de Vinde ó Deus de toda Luz, pois seu texto é em português e esta é sua letra. Anônimo, foi escrita em Andante, mas com fórmula de compasso 4/4 e possui 31 compassos. Até o compasso 21, a 1ª voz segue só e alterna com as demais vozes quando se canta: De vossos dons. Sobre a autoria, sabe que em São Paulo há uma mesma composição com esta melodia, mas lá conhecida, é conhecida como Hino de Santa Cecília.

Como a Novena é feita ante a exposição do Santíssimo Sacramento é entoado um Salutaris Hostia conhecido como Salutaris Elvira, pois foi composto por Elvira Rosa Ferreira. Concebido para soprano solista, atualmente é cantado por tenor. Suas características musicais são: Fá maior/Ré menor, 3/4, Andante, 55 compassos, onde o solista inicia em mf no 11º compasso terminando no 46º. Dispende de muita técnica e fôlego do compasso 23 ao 29.

Como toda Novena tem uma Ladainha, a do Divino não poderia ser diferente. Como não se localizou Ladainha específica para a novena do Divino no arquivo do Coro, canta-se a de Nossa Senhora. Há uma curiosidade em relação à catalogação das Ladainhas no arquivo do Coro, elas são nominadas, em grande parte por letras (C, K, E e D). E são as composições mais acompanhadas por todos que presenciam a Novena, seja pela repetição, seja pela semelhança de algumas palavras latinas ao português, que são interpretadas de formas que convém pelos ouvintes como: Crhiste Eleison (triste eleison), Criste Audinos, Cristo aí de Nós (Cristo ouvi-nos), Regina Sine Labe Originale Concepta, Regina Chinelada Conserta (Rainha concebida sem pecado original). Passemos a uma rápida descrição musical de cada Ladainha utilizada na novena.

Ladainha C: É a mais conhecida. Provavelmente seja de origem italiana pela semelhança as óperas do fim do século XIX. Não há indicação de ano e autor. Seus 185 compassos se dividem claramente em movimentos internos: entre o Kyrie com 32, andante, Responsório 121, Allegro, e o Agnus Dei 31, Andante. A parte do responsório é dividida em 5 partes de 20 compassos, onde a 1ª Voz canta a jaculatória e as demais “respondem”.

Ladainha Bataglia: A segunda mais famosa, também pode ter origem italiana. Isso era comum não só em Pirenópolis. As peças vinham do Rio de Janeiro e chegando a cidade tinham o nome adulterado e apagado os vestígios de origem. Tal prática se deva, talvez, à rivalidade entre as duas orquestras da cidade, que desencadeou a disputa por novas músicas, elevando, assim, a qualidade musical. A fim de garantir a exclusividade sobre determinada obra, sua procedência seria ocultada. A Ladainha Bataglia tem 191 compassos, sendo o Kyrie, 20, andante, o Responsório, 130, alegro e o Agnus Dei, 41, andante. O responsório é dividido em 8 partes de 16 compassos cada. O Baixo faz a jaculatória e os demais “respondem”.

Ladainha K: Pouco conhecida ela é a 2 vozes. Ela tem 192 compassos, organizados entre Kyrie, 28, moderato, Responsório, 141, alegro e Agnus Dei, 23, moderato. O Kyrie tem uma introdução de 4 compassos executados pela orquestra antes das vozes.

1º Tantum Ergo: Está é uma das composições mais emblemáticas da Novena. Sem autoria, ano, data, copista e lugar. Ao fim, destacam-se os Trompetes. Escrito á 2 Vozes e Baixo, é composta por 82 compasso, sendo 45 em Andantino non sostenuto, e 37 em allegro.

Hino do Divino: É a música mais executada, emocionante e esperada em toda Festa. Composta por Antônio da Costa Nascimento, que o escreveu como uma música para ser executada de madrugada, causou emoção aos ouvintes, foi letrado e se tornou o Hino da Festa. Após 118 anos de sua composição ainda emociona a todos.

As peças supracitadas foram editadas e rescritas em computador e são desde 2015 utilizadas, já os originais, agora tem seu merecido descanso após anos de uso e junta-se agora as demais peças do arquivo do Coro.

Além das composições citadas já foram executados na Novena do Divino, o Tantum Ergo Odilon (de José Odilon de Pina) que está voltando a prática musical na Novena. No verso da parte vocal do 1º Tantum Ergo, há um Adoramus Te Christi, que provavelmente era executado quando o Santíssimo era reintegrado ao Sacrário, após a benção.

¹ Marcos Vinicius Ribeiro dos Santos é acadêmico de arquitetura e urbanismo, membro da mesa diretora da Irmandade do Santíssimo Sacramento, arquivista e trombonista da Escola e Banda de Música Phoenix do Mestre Propício, tenor da Orquestra Nossa Senhora do Rosário e membro da Comissão Pirenopolina de folclore.

Matéria publicada em 14/05/2017 às 13h11min.

© Nikolli Pereira
Orquestra e Coral Nossa Senhora do Rosário durante a Missa do Divino em 2015. © Nikolli Pereira
Orquestra e Coral Nossa Senhora do Rosário após a Missa de Páscoa em 2016. © Nikolli Pereira
Orquestra e Coral Nossa Senhora do Rosário durante a Missa do Rosário em 07 de outubro de 2016. © Eudes Pina
Orquestra e Coral Nossa Senhora do Rosário executando Motetos das Dores na Semana das Dores em 2017. © Fátima Meira
Orquestra e Coral Nossa Senhora do Rosário executando Motetos dos Passos na Festa de Passos em 2016. © Fátima Meira